João Grande: Deus e os orixás me dão força

Mesmo sem falar inglês, um dos maiores mestres de capoeira Angola do Brasil, mestre João Grande, vive em Nova York.
Pela sabedoria e riqueza de seu trabalho, os norte-americanos já concederam ao mestre brasileiro o título de doutor Honoris Causa.
Sua trajetória pelos EUA começou em 1990. Sem escolaridade e sem dinheiro, chegou aos Estados Unidos como convidado para participar do Festival de Cultura Negra de Atlanta. Mas um outro convite do colega baiano, o Negro Gato, para realizar workshops no Harlem, forçou João grande a estender um pouco mais sua permanência, “Entretanto, resolvi prolongar mais alguns dias e acabei ficando de vez. Em três anos consegui o green card, e criei raízes. Acho que foi Deus quem mandou que viesse para Nova York. E daqui não pretendo sai mais”, garante.
João grande afirma que sente saudades da Bahia, que é uma terra abençoada.. Mas segundo ele, lá a capoeira não tem valor. Nos EUA, está sendo reconhecido pelo seu trabalho, onde utiliza de toda a antigüidade da Angola apresentada por Pastinha e demais mestres. “Na academia onde ensino, somos uma família, pois um ajuda o outro”, lembra. João cultiva experiências anteriores, adquiridas em viagens pela África e Europa, fazendo shows que representavam a Bahia, como: capoeira, candomblé, samba e maculelê.
“Pelo mundo, nós apresentávamos tipos de capoeira como o Exú, Capoeira de Cadini e Capoeira de Rua (jogo fechado). O que faço no shows, não faço nas ruas ou academias. O angoleiro é malicioso e possui um lado positivo e outro negativo, conforme o adversário”, explica o mestre. A capoeira Angola é uma dança africana, a “dança da zebra”, trazida pelos escravos que ficavam escondidos em suas senzalas, exercitando. Quando seus chefes chegavam, eles praticavam a dança. Faziam isso para serem libertados. Então, a capoeira passou a ser uma arte, uma dança, cultura e profissão. Angola é a mãe de todas as danças e lutas. Os africanos possuem muita cultura e raiz para oferecer.
O mestre João Grande conta que muitos capoeira já não jogam mais por amor. Alguns dão aulas sem pensar em capoeira. “O meu gênero era dança e folclore, até o dia que o Pastinha me deu o título de mestre”, lembra. Depois que se aposentou, passou a dar aulas na Bahia, inclusive para os meninos de rua. Costuma dizer que começou a jogar capoeira por ordem de Deus e seus orixás. “Quando eu tinha 10 anos, passaram dois meninos perto de mim e fizeram o corta-capim. Prestei atenção, só de longe. Depois, meu bisavô me explicou que era uma dança nagô, que veio da África”, acrescenta.
João Grande recorda que percorreu, por muito tempo, algumas regiões, perguntando sobre o corta-capim, mas ninguém soube lhe explicar em detalhes. Até que por fim.ele encontrou o mestre João Pequeno, que lhe mostrou o golpe e respondeu que aquilo era capoeira.
O aprendizado da arte aconteceu com o mestre Pastinha. “Ele era calmo e não gostava de violência. O Pastinha foi meu mestre, avô e pai de capoeira”, garante João Grande.
A vontade de voltar para a Bahia é imensa. O mestre lamenta que a capoeira esteja ameaçada por falta de apoio à cultura brasileira. “Enquanto isso, vou ficando por aqui, mesmo curtindo a saudade da Bahia. Deus me dá forças! Por isso, acredito que posso dar continuidade ao eu trabalho, divulgando cada vez mais nossa cultura nos Estados Unidos, finaliza.
fonte: Entrevista retirada da Revista Capoeira - Ano II #06 - Brasil - http://www.revistacapoeira.com.br/site/
Categoria: Curiosidades
Escrito por Prof. Camundongo às 14h13
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